Sobre o LABMUNDO

O LABMUNDO é um grupo interdisciplinar de pesquisa, na área de Relações Internacionais, criado em 2006 na EAUFBA. Agrega pesquisadores de diversos departamentos da UFBA e de outras universidades da Bahia, do Brasil e do mundo. Saiba mais

Obama: Super Homem, a canção?

Por André Santos (Doutorando em Administração pela UFBA, membro da Comissão Editorial do Portal LABMUNDO)

"O meu governo está agora comprometido com a diplomacia que aborda uma ampla gama de questões que temos pela frente, e com a busca de laços construtivos entre os Estados Unidos, o Irã e a comunidade internacional. Esse processo não progredirá por meio de ameaças".   (Trecho do discurso de Obama destinado ao Iram no último 20/03)... Fonte: The New York Times

“Quem sabe, o Super Homem venha nos restituir a glória, mudando como um Deus o curso da história, por causa da mulher...” (GIL, Gilberto. In: Super Homem, a canção)

Em meio a um mundo ainda em crise, eis que os Estados Unidos parecem nos reinventar um sonho. O sonho kantiano da paz perpétua, um mundo pautado pelo idealismo em detrimento dos imperativos militares próprios da tradição realista. Utopia que nos querem fazer acreditar, ou sofisticação estratégica e midiática de uma política externa tradicional travestida de renovações?
A última estratégia do governo Obama em enviar ao Irã uma mensagem conciliatória os convidando a pôr fim a anos de desconfianças mútua, lança ao mundo a dupla semente do confiar desconfiado. Se para parcela considerável da sociedade internacional, o ato de paz tenha o condão de lançar água doce ao esquentado debate e, de algum modo, reacender a chama boa do sonho multilateral de sociedade internacional apagado pelo onze de setembro; para outra parcela dessa mesma sociedade, sobretudo as historicamente maceradas pelas cartilhas Bush pai e filho, tal assertiva não deve causar enganos, ou quiçá, alimentar eventuais promessas de mudança epistemológica no modo americano de conduzir as suas relações com outros países.
Desconfianças à parte, não resta dúvidas de que, de algum modo, a mensagem exarada pelo novo presidente demonstra claramente a sua predileção pelo diplomata em relação ao soldado. Esta escolha, para além de criar possibilidades mais dialogadas para o mundo, lança para os Estados Unidos o argumento retórico que lhe faltava para uma saída digna do Iraque e, consequentemente, a economia de milhões e milhões de dólares de gasto militar, efeito ainda de uma campanha desastrosa liderada pelo seu antecessor. 
No entanto, a política do soldado americano ainda existe e não será extinta pelo discurso do diplomata. Ele, o diplomata norte americano, tem como plus na sua carta de plenipotenciário, o argumento de representar os interesses da potência militar mais poderosa do mundo. O big stick continua presente, só que guardado nas pastas e implícito nas frias letras de acordos internacionais em fase de composição.
Daí, para o Irã e o seu sonho atômico resta a semente da desconfiança coberta com doses de cautela. Se por um lado não é de bom tom rejeitar os votos de paz, sobretudo, para não perder legitimidade junto à sociedade internacional que, nesse momento, aguarda apreensiva aos próximos passos da doutrina Obama quanto a eventuais sanções à Teerã, por outro, não é estrategicamente inteligente dar vivas à boa nova, sem, ao menos, marcar posições públicas do seu ressentimento histórico, evidenciando, assim, o seu desejo por retratações públicas mais significativas do ponto de vista simbólico e material.
Mas, para além das conjecturas políticas, eis que ainda existe um sonho de vivenciarmos a experiência de uma verdadeira comunidade internacional. Este ideário tão miticamente reivindicado pelos atores da sociedade internacional, sobretudo quando nos querem provocar a comoção social para os dramas internacionais de ordem humanitária, é, também, um instrumento retórico da sociedade interestatal para camuflar as suas lógicas de interesse. Nesse sentido, o discurso de Obama também nos lança essa inquietação. Que comunidade internacional é essa que aparece no seu discurso? Aquela da retórica, ou a mítica comunidade no passado sonhada por Kant e, hodiernamente, defendida por David Held? 
Pergunta sem resposta e, como já diria Chico, “sonhos, sonhos são”; Daí, resta-nos apenas esquecer a ciência política e as teorias das Relações Internacionais e sonhar o sonho dos comuns... E quiçá, acreditar que esse moço deva ser o Super Homem vindo para nos restituir a glória de sermos humanos e vivermos numa comunidade capaz de mudar o curso da nossa própria história.

 


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