Sobre o LABMUNDO

O LABMUNDO é um grupo interdisciplinar de pesquisa, na área de Relações Internacionais, criado em 2006 na EAUFBA. Agrega pesquisadores de diversos departamentos da UFBA e de outras universidades da Bahia, do Brasil e do mundo. Saiba mais

O Significado da Guerra

Por Felippe Ramos (Sociólogo, professor substituto do Depto. de Sociologia da UFBA)

Israel iniciou seus ataques mais recentes à Faixa de Gaza em 27 de dezembro de 2008. Em um espaço de duas semanas, os acontecimentos se sucederam rapidamente. No entanto, o saldo extremamente desequilibrado de vítimas fatais – 760 palestinos e 11 israelenses – tem levado até os Estados Unidos a moderarem o discurso e defenderem o acordo de cessar-fogo proposto pelo Egito.
Pressionado por um poderoso ator das relações internacionais – a opinião pública internacional, Israel admitiu iniciar as negociações, mas ressalvou que o Egito deve assentar-se à mesa de negociações em lugar do Hamas. Uma forma de, com um único ato, preservar o princípio vestfaliano de que apenas os Estados são atores legítimos e manter o status depreciativo do Hamas como grupo insurgente e não como Força Armada, esta considerada monopólio estatal. O problema teórico colocado a esta linha de pensamento é que um Estado se caracteriza por sua declaração de independência lastreada na possibilidade real de se manter como tal (posse de recursos institucionais, políticos, econômicos, culturais e militares) e não pelo seu reconhecimento externo, pois se dependesse do último o Estado já não seria plenamente independente. Os palestinos têm plena convicção de sua independência de direito, ainda que não de fato. São, portanto, um povo em um território com fronteiras delimitadas e com sentimento nacional e de independência, inclusive com autoridades e instituições constituídas (Autoridade Nacional Palestina - ANP), ainda que sem poder para impor-se perante Israel. A política de enfrentamento aos palestinos em nome de sua soberania e da segurança de seus cidadãos faz com que Israel assuma nas entrelinhas, mas sem poder assumir publicamente, que os palestinos conformam uma nação e, quiçá, um Estado. Ora, se a soberania está ameaçada, um outro ator (potencialmente) soberano deve estar envolvido. Ademais, reconhece-se que os palestinos não são assunto nacional, pois não são cidadãos de Israel, e como tal Israel abstém-se do dever de proteção àqueles que ocupam seu território. Ou seja, os palestinos são de fora. Mas de onde? Da Palestina, claro, tal como nas fronteiras anteriores a 1967. Se são de fora, trata-se de um Estado invadido e, nesse caso, Israel é que ameaça (e destrói) a soberania e o bem-estar dos cidadãos palestinos. Mas o fato é que a Palestina já não tem mais condições de projetar-se enquanto Estado e defender-se como tal. O que resta? À primeira vista, a insurgência nacionalista, tal como expressa pelo Hamas. Ainda que discordemos de tudo o que o Hamas faça ou simplesmente signifique, devemos lembrar que Israel recusa-se a respeitar a resolução 242 da ONU que exige a reposição imediata das fronteiras de 1967. Assim, Israel projeta-se como um Estado que não respeita uma resolução emanada do sistema multilateral do qual é parte. Contudo, devemos lembrar que o Hamas declarou unilateralmente em 19 de dezembro de 2008 o fim do cessar-fogo negociado também por intermédio do Egito. Justificou dizendo que Israel não respeitou diversas partes do acordo, no que se refere às provisões de energia e água, etc. Destarte, a moeda, claro, não tem apenas um lado.
Acrescentemos o fato de que em junho de 2007, a Autoridade Nacional Palestina se dividiu após uma crise de legitimidade interna. O Hamas passou a controlar a Faixa de Gaza e o Fatah, do presidente (reconhecido internacionalmente) Mahmoud Abbas, obteve o controle da Cisjordânia. Abbas se proclama presidente legítimo da Faixa de Gaza e está à frente dos movimentos diplomáticos no presente conflito, mas, de fato, a Faixa de Gaza está sob comando do Hamas e o acordo de paz depende de seu assentimento. O fato é que o presente ataque de Israel alveja a Faixa de Gaza e não a Cisjordânia, o que parece corroborar o discurso diplomático israelense de que o objetivo do ataque é destruir o poder de fogo do Hamas, principalmente no que diz respeito ao lançamento de foguetes contra cidades israelenses. Assim, é pertinente a discussão (muito forte entre os palestinos) sobre qual a melhor forma de se conquistar o objetivo da independência real da Palestina: militar ou diplomaticamente. Já se sabe pela experiência que a um ataque de foguetes (ou mesmo de pedras, como na Intifada), Israel pode usar força militar desproporcional: tanques, caças, mísseis, etc. Não estaria, desse modo, o Hamas dando argumentos para que Israel ataque, vulnerabilizando os concidadãos aos quais diz proteger? É uma discussão extremamente válida, ainda mais tendo em vista o pacifismo liberal e universalista do Ocidente. Todavia, nesse ponto, vale a pena lembrar o realismo de Hans Morgenthau: nenhum Estado na história se constituiu com apenas um dos dois fatores isoladamente (força militar ou influência política e diplomática), mas sempre a partir da conjugação sui generis desses dois fatores. Mas também existe a possibilidade da criação do Estado palestino através de negociações internacionais respaldadas pelos clamores humanitários da comunidade internacional e da opinião pública mundial.
Enfim, concordo com Shulamit Aloni, ex-ministra da Educação de Israel, quando diz que “os homens do Hamas e seus líderes pertencem ao lado do mal, e seu ódio por nós faz com que eles afastem para longe as inibições racionais de uma liderança consternada com o bem-estar de seus cidadãos. De fato, a conduta do Hamas desde o seu surgimento e de sua eleição vitoriosa subseqüente não merece qualquer elogio”. Mas a própria acrescenta em tom de realismo: “Contudo, os residentes da Faixa de Gaza cativos da liderança do Hamas – mulheres, idosos, crianças, estudantes, professores, hospitais, médicos e pacientes – não têm de ser punidos com destruição, morte e privações por causa dos atos desprezíveis de seus líderes”.(Ver em: http://www.cartamaior.com.br). Ademais, "Os ataques israelenses ferem a Convenção de Genebra primeiramente porque punem coletivamente os palestinos residentes em Gaza, não fazendo distinção entre alvos civis e combatentes", disse, em São Paulo, Richard Falk, relator especial das Nações Unidas para a situação dos direitos humanos nos territórios ocupados por Israel desde 1967. Segundo Falk, o bloqueio econômico mantido por Israel há 18 meses também está em desacordo com o direito internacional (fonte: http://www.cartamaior.com.br). “Se o objetivo é erradicar o Hamas, tudo isso reforça o Hamas”, afirma Mustapha Barghouthi, secretário-geral da Iniciativa Nacional Palestina (fonte: http://www.cartamaior.com.br). Assim, temos que saber em que ponto estamos defendendo valores pessoais e em que ponto estamos avaliando objetivamente a situação. Frente a atual conjuntura geopolítica de Israel e dos territórios palestinos ocupados, combater o Hamas através de um massacre que afeta de forma direta os civis é inócuo e apenas alimenta as alternativas fundamentalistas, minando o frágil tecido de legitimidade da ANP.
Outro ponto a se discutir: desde a primeira Guerra do Golfo assistimos aos conflitos como assistimos a um filme de Hollywood. A transmissão ao vivo das imagens transforma a guerra em uma espécie diferente de reality-show. Daí em diante, explodiram as vendas de games de computador que simulam com perfeição espetacular as ações bélicas – podem-se vê-los na lan house mais próxima. Entretanto, um novo vetor (potencial empoderador de novos atores) surge nas relações trans/inter-nacionais: a internet. Conhecendo a imagem internacional de seu país, o governo israelense tratou de competir com as inúmeras manifestações pró-Palestina ao redor do mundo. No afã de demonstrar transparência, lançou o site http://idfspokesperson.com/ no qual relata cotidianamente as ações militares referentes ao conflito, inclusive a ocorrência de fogo amigo. Ademais, marca presença no Twitter e no Youtube (com página própria de vídeos). Há também iniciativas civis autônomas, como o http://www.israellycool.com/. Assim, Israel reconhece o papel desempenhado pela imagem nos conflitos da sociedade da informação. Mas os blogs é que impressionam. Ao requerer apenas um computador com internet e dispensar provedores pagos, os blogs permitem que qualquer pessoa emita suas opiniões. Assim, saímos da era da TV, na qual o telespectador era o sujeito ao qual se endereçavam conteúdos pré-prontos, para a era da internet, na qual todos são atores e onde o sentido está sempre em construção, sem monopólios ou possibilidades de censura total. As iniciativas de Israel, desse modo, se perdem ante o turbilhão de blogs de pessoas comuns que relatam e retratam o cotidiano do massacre, mas sem a espetacularização típica da TV, uma vez que mantemos contato com as vozes dos sujeitos aos quais o sofrimento é infligido. Não há como não se comover e solidarizar. Ainda mais que sabemos em que condições se dão os esforços de um simples post: “Alguns de vocês se perguntam como envio notícias em tais condições. Eu realmente sofro muito para lhes enviar esta atualização devido à falta de poder. Caminho cerca de 4 km por dia nesta guerra cruel para recarregar a bateria de meu laptop para lhes enviar esse trabalho. É muito arriscado, ainda mais que chovem granadas e foguetes pairam sobre mim. Mas continuarei assim mesmo.” (Ver em: http://gazatoday.blogspot.com). Em outro lugar lemos: “Sim, ninguém pode dizer que o Hamas é feito de anjos. Eles não são. Mas não soa absurdo que enquanto F-16s e Apaches bombardeiam Gaza e enquanto tanques estão se posicionando ao redor da Faixa, os clamores são para que o Hamas pare a violência?” (Ver em: http://orangesandolives.blogspot.com). Outro blogueiro escreve: “Vocês se lembram que eu estava trabalhando com Hassan outro dia e ele estava falando que não podia ir pra casa e quão preocupada sua esposa estava? Hoje ele foi alvejado por um atirador de elite israelense”. (Ver em: http://talestotell.wordpress.com). Mais um depoimento: “O prédio em que estava acabou de ser bombardeado. (...) S. me pergunta a questão que todo palestino se faz: ‘por que estão nos bombardeando?’ Ele acrescenta o que muitos pensam: ‘Não sou Fatah, não sou Hamas. Eu gosto de vodka.’ Diz que vai me mostrar no futuro. Se tiver futuro, acrescenta com um sorriso.” (Ver em: http://www.rafahkid.net). Um blog com nome sugestivo – De Gaza, com amor – relata as estatísticas (no que as vítimas são, enfim, transformadas): “720 foram mortos, incluindo 215 crianças, 89 mulheres e 12 para-médicos de primeiros socorros”. (Ver em: http://fromgaza.blogspot.com). Em outro blog encontramos relatos acerca do que os palestinos fizeram na trégua de três horas para ajuda humanitária: “Três horas. E cada pessoa, família, grupo, tinha que decidir como usar o tempo. Alguns dividiram o trabalho: pão, cobertores, comida. Outros correram para visitar os amados – ou simplesmente para tomar um pouco de ar fresco.” (Ver em: http://www.a-mother-from-gaza.blogspot.com). Em outras fontes, encontramos vídeos e fotos (ver em: http://sabbah.biz/mt e http://www.tadamon.ca). Outras fontes interessantes são: http://ingaza.wordpress.com e http://angryarab.blogspot.com. Assim, a internet potencializa a resistência ao romper o cerco espetacular da mídia e dar voz aos sujeitos que sofrem.
Nesse turbilhão de bombas, mortes e sofrimento, a comunidade internacional se mobiliza. A França assume uma postura enérgica cobrando de Israel uma postura em prol da paz. O Egito propõe um plano de paz urgente. Até o Brasil, através do chanceler Celso Amorim, planeja contribuir para uma solução negociada. Amorim visitará Israel, Palestina, Síria e Jordânia entre os dias 11 e 13 de janeiro. O recém-eleito presidente norte-americano Barack Obama, por sua vez, preferiu o cauteloso silêncio alegando que não é seguro para os Estados Unidos ter duas pessoas ditando sua política externa, mas quebrou o gelo ao defender a paz em poucas palavras. A ONU, através do Secretário-Geral Ban Ki-moon e da reunião do Conselho de Segurança (CS), mostra presença – aprovou, em 08 de janeiro, a resolução 1860 defendendo o imediato cessar-fogo em Gaza (quatorze dos quinze membros do CS votaram a favor; apenas os Estados Unidos – aliados incontestes de Israel – se abstiveram). A resolução defende renovados esforços para alcançar uma paz compreensiva com dois Estados democráticos, Israel e Palestina, vivendo lado a lado em paz com fronteiras reconhecidas e seguras. Também encoraja passos em direção a uma reconciliação intra-palestina (Hamas e Fatah). (Ver em: http://www.un.org). Nesse ponto, temos a razão israelense, a razão palestina, a razão internacional e, no meio de tantas razões, as vozes das pessoas comuns que estão alocadas nos territórios atacados e que, como o amigo do blogueiro palestino, esperam por um futuro que não sabem se virá.

 


Relatório Bianual 2006/2007

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